4ª capa

In Vitro, In Vivo, In Silício é composto por um conjunto de artigos de antropólogos, historiadores, críticos de arte, curadores e artistas, que aponta para a capacidade da arte em produzir teoria numa forte inter-relação com o religioso. Com o material oferecido por esta coletânea, as experiências do sublime, do sagrado e do espiritual aparecem como práticas integradas, performances críticas e atos de pensamento constitutivos da vida moderna e contemporânea. Não se restringem a expressar suas questões, mas intervêm e participam delas, trazendo desafios para a ordem do sentido e para a formulação de novos problemas éticos, entre eles, os relativos às novas concepções de identidade, subjetividade, individualidade, responsabilidade e comunicabilidade. Por isso, desenvolvem-se através de um diálogo tenso e intenso com a ciência, porque são, como ela, práticas redefinidoras do humano, do inumano e do não-humano, no atual momento de expansão do universo tecnológico numa cultura eletrônica e biotecnológica.

Afastando-se da presunção do poder cognitivo, de qualquer suposto domínio sólido e absoluto do conhecimento, o livro se abre a uma nova condição do pensamento, que não se limita a ser expressivo de uma cultura particular ou da subjetividade do artista, mas que está aí, para ser experimentado e constantemente renovado como experiência de inquietação.



Orelha

Houve tempo em que era obrigatório compartimentar os saberes – arte, ciência, tecnologia, espiritualidade – e eleger alguns desses saberes como observadores dos outros ou mesmo como observadores do que era rebaixado para o nível das crenças ou da subjetividade. Embora a notícia ainda não tenha chegado a muitos departamentos e outras instâncias acadêmicas, este tempo já era. Se é que algum dia o foi, totalmente. De qualquer maneira, o reconhecimento da impropriedade dessa compartimentação é significativo – reconhecimento tributário por sua vez da preocupação com a insuficiência das visões dicotômicas que separam corpo e mente, razão e emoção, e assim por diante.

A academia tende a ser conservadora (para o bem e para o mal). E por isso seguidamente os saberes eleitos por ela para observar os demais acabam se vendo perplexos diante dos seus observados, incapazes de “dar conta” do que observam com os seus quadros conceituais usuais.

Diz a lenda que (só) ao anoitecer certa coruja alça vôo. Talvez seja tempo de questionar esse hábito e duvidar da sabedoria desse retardo, que por vezes se eterniza. E me parece que este é o significado desta coletânea. Podemos, talvez, classificá-la como experimental.

Seja como for, aqui não é possível dividir observados e observadores. Há uma real tentativa de interação e diálogo simetricamente e em múltiplos planos. Mas tudo isso não exclui a busca do rigor. Não do rigor mortis, mas do rigor que vai se fazendo (e se desfazendo) em ato.

Digno de nota é o fato de tal empreitada ter sido acolhida num projeto de pesquisa coletivo elaborado e executado por antropólogos. Com todos os seus problemas, essa indisciplinada disciplina da antropologia (nas palavras de Clifford Geertz) ou essa ciência social do observado, em contraste com a do observador (nas de Lévi-Strauss), talvez seja uma das que abre a possibilidade para um tal encontro, sobretudo em sua versão apofática. Encontro que para ela não é nenhum favor, mas a condição mesma de sua renovação.

Boa sorte a esta coletânea. Sorte que será de todos nós na medida em que ajude a (re)abrir perspectivas e colabore para tornar os nossos t(r)ópicos, subditamente estendidos a todas as latitudes, mais alegres, menos (tristemente?) realistas.

Otávio Velho