PREFÁCIO : de Omar Ali Shah

O Sheikh Muslihuddin Saadi Shirazi nasceu em Shiraz, no ano 571 da Hégira (1175/6 d. C.). Era filho de um modesto dignitário da corte de Muzuffar al Din Takla bin Zangi, terceiro Atabeg dos Salgáridas de Fars, que se haviam fixado em Khurassan e, sob o reinado de Abu Bakr bin Saad bin Zangi, patrono de Saadi, tornaram-se tributários do shah de Khwarezm. O jovem Muslihuddin teria tomado seu nome literário do príncipe, embora alguns o julguem derivado do árabe saad, que significa “propício”.

Alguns contos do Gulistan confirmam a tradição segundo a qual Saadi teria sido, desde a juventude, muito atraído pelos prazeres mundanos, ao mesmo tempo em que era profundamente religioso. O Bustan, sua outra grande obra, relata as primeiras etapas de sua educação em Bagdá, no colégio Nizamiya, fundado por Nizam ul Mulk. Em Bagdá, bem cedo se encontrou sob a influência dos grandes sufis Abd al Faraj bin Jauzi e o Sheikh Shahbuddin Suhrawardi, iniciando-se em seguida na escola sufi Naqshbandi. Manteve, além disso, numerosos contatos com o maior sufi da época, o Qutb – ou Pilar do Sufismo – Najmuddin Kubra Naqshbandi, morto durante a destruição de Bokhara por Gengis Khan em 1221 d.C.

Em conformidade com um preceito do sufismo, Saadi viajou muito, e a importância dessas viagens é visível na leitura do Gulistan. Visitou países tão distantes quanto a China, a Índia, a Abissínia, o Marrocos e a Turquia, o que não era uma empresa fácil numa época em que as viagens eram dispendiosas, perigosas e exaustivas.

Mesmo antes de iniciar a redação do Gulistan, no ano 656 da Hégira, já era um poeta famoso. Paralelamente, crescia sua reputação de sufi, ainda que seus ensinamentos públicos tratassem, sobretudo, de certos aspectos da moral e da educação, atraindo rapidamente a atenção de um público não sufi que podia assimilar facilmente suas máximas e contos morais. Muito tempo antes de sua morte, o Gulistan e o Bustan se haviam tornado verdadeiros manuais de poesia, comportamento e moral. Pessoas de todas as origens sociais, qualquer que fosse seu nível intelectual e cultural, podiam tirar proveito de seus escritos e compreendê-los.

Embora todas as chances de acumular bens se lhe tenham oferecido, Saadi nunca foi um homem rico. Em Fahandar, construiu uma casa para acolher estudantes e peregrinos, graças ao donativo de um ministro de Mughal, Imperador da Pérsia. Apesar de incontestavelmente piedoso, nada tinha de fanático. Era um homem bondoso que compreendia profundamente a humanidade e suas fraquezas.

Sua atração pelo sufismo foi o resultado natural de uma educação marcada pela devoção, pela filosofia e pelos laços íntimos com os mais influentes sheikhs sufis. Para alguém que desejasse atingir percepções mais profundas, para um buscador da Verdade, o sufismo era, manifestamente, o caminho mais natural. Para o devoto, esta busca é fundada em princípios bem definidos que, uma vez aplicados, permitem penetrar o véu das percepções sensoriais que se erguem entre o homem e Deus.

O estado de conhecimento, objetivo do sufismo, é alcançado seguindo-se rigorosamente o caminho sob a direção de um sheikh. Enquanto o sufi segue este caminho de recitação e devoção absoluta a Deus, abstinência e rejeição dos bens deste mundo, vive experiências místicas que descreve a seu sheikh, capaz de avaliar seu grau de evolução espiritual e guiar seu desenvolvimento posterior.

O sufi, para realizar tais experiências, não precisa tornar-se um eremita. Na verdade, o devoto deve seguir o preceito maior do sufismo de “estar no mundo sem ser do mundo”, submetendo-se continuamente a um exame de si e de seus atos. Ibn Khaldun, em seu Muqaddimah, refere-se a isso nestes termos: “O noviço deve observar-se em todas as suas ações e examinar seu significado profundo, pois os resultados originam-se obrigatoriamente nos atos, e as insuficiências nos resultados provêm, em conseqüência, de erros nas ações” (Ibn Khaldun, Muqaddimah, tradução de Rosenthal, 1958).

Desde as origens do Islam, os sufis foram alvo, em certos períodos, de suspeitas e animosidade por parte dos não-sufis, sofrendo todo tipo de acusação, desde incorrer em idéias do neoplatonismo, à pura heresia. No entanto, tão grande é a força de suas idéias e tão profundas suas raízes que sempre conseguiram ressurgir, ainda com mais vigor.

Muito se escreveu a respeito da etimologia da palavra “sufi”. Uma tese muito comum refere-se à palavra “suf”, que quer dizer lã, pois os sufis usavam um manto de lã. Esta afirmação é, porém, inaceitável, pois os sufis não eram os únicos a usar um manto de lã. Além do mais, teriam sido nomeados Mossawiffin, e não Mutassawifin – palavra que corresponde à sua designação exata. Os sufis preferem a tese de que seu nome provém da palavra saff, isto é “fila” ou “posição”. Em uma mesquita, os fiéis dispõem-se em fileiras diante do mihrab, ou recinto da prece. Os sufis dizem que atingiram o primeiro “saff” entre os fiéis diante do Trono de Deus, em virtude de se terem purificado do contágio do mundo (cf. Hujwiri, Kashf ul Mahjub).

A alegoria contida no Gulistan destina-se somente aos sufis, pois eles não podem confiar seus segredos àqueles que não estão preparados para recebê-los ou interpretá-los corretamente. Para transmitir tais segredos aos iniciados, os sufis elaboraram uma terminologia. Quando uma palavra não permite a transmissão dessas idéias, utilizam fórmulas especiais ou alegorias.

Atingindo a união mística, o sufi penetra um outro universo, projetando a alma (nafs) para além da zona de poluição da mundanidade. O espírito e os poderes psíquicos alcançam, então, um estágio de desenvolvimento onde podem compreender efetivamente o que é a Verdade e perceber as realidades da existência.

A massa complexa da literatura persa medieval contém um número considerável de obras sufis que influenciaram profundamente a cultura e a teologia do Oriente Médio. Autores como Saadi, Jami e Rumi foram fonte de inspiração para pensadores europeus como Domi, cuja obra Gesta Romanorum – que, por sua vez, serviu de base à obra de Thomas North, A filosofia moral de Domi – inspirava-se em Anwar i Suhail. O Gulistan, de Saadi, bem como outras obras persas, renovou e estimulou a literatura alemã do século XVI; o conto de Grimmelhausen, Joseph, por exemplo, é claramente inspirado no conto persa "Yussuf e Zulaika".

A influência persa na literatura européia fez-se sentir muito depois da introdução do pensamento sufi, contemporânea das invasões árabes na Europa, e que, algumas vezes, as precedeu. É reconhecido que o Squires Tale de Chaucer e os Ditos e Adágios dos Filósofos – o primeiro livro impresso na Inglaterra – têm suas fontes no pensamento árabe sufi. Alguns poetas ocidentais chegaram mesmo a copiar a metrificação persa – por exemplo Platen. Também Goethe foi profundamente influenciado pelos escritos de Hafiz. E o professor Asin Palacios observa que o caráter tão particular da descrição que Dante faz do Inferno, do Paraíso e da Visão beatífica é a tal ponto próxima àquela de Ibn Arabi, que dificilmente se poderia tratar de coincidência fortuita. Von Gruenbaum, em sua descrição da civilização muçulmana, afirma que Averróis (Abu al-Walid ibn Ruchd) teria inspirado o Robinson Crusoé a Defoe. Todavia, as pesquisas relativas à influência do pensamento sufi na mística, na literatura e na filosofia do Ocidente não constituem o tema deste livro.

O Gulistan, ou O Jardim das Rosas, de Saadi, é uma coletânea em verso e prosa, impregnada dos elementos mais profundos da filosofia sufi. Saadi pertencia à confraria sufi Naqshbandi. Atingiu um nível elevado nessa Ordem e, sobretudo, foi reverenciado como mestre e pregador da filosofia mística da Rosa. Como é o caso de muitos escritos desta natureza, é possível ler o livro de Saadi como simples entretenimento ou, ao contrário, aprofundando-se no sentido alegórico de cada dístico, de cada palavra, uma vez que Saadi, mestre sufi, não as escolhia ao acaso e tampouco adequava seus versos a esquemas arbitrários. Para o pensamento sufi, tudo o que existe, animado ou não, possui uma essência, um caráter próprio, ao mesmo tempo aparente e oculto, mas cuja descoberta e interpretação são proporcionais ao grau do despertar espiritual do leitor. Isto posto, será possível compreender o quanto é vital, numa tradução, recuperar o espírito da obra de modo a conservar a essência e mantê-la aberta às duas interpretações.

Compreender Saadi é compreender o sufismo – embora esta afirmação seja exageradamente simplificada, dado que, apesar de o Gulistan ser lido em todo lugar em que se fala persa, milhares de leitores não chegam a apreender o sentido profundo da obra, a menos que seu estágio particular de desenvolvimento o permita. Cada leitura do texto aumenta nossa compreensão dos preceitos fundamentais do Amor Sufi, que desempenhou papel fundamental em todos os domínios da civilização oriental.

No passado, tradutores e estudiosos criticaram o caráter aparentemente sensual da poesia e da prosa sufis. Só alguns souberam interpretar corretamente o significado do Amor que se depreende do pensamento sufi, isto é, o amor tal como o sente o indivíduo que se dedica a cultivar este Conhecimento que o conduzirá à União (wasl) com o Bem-Amado (Deus). R. A. Vaughan, em seu Horas com os místicos, sintetiza bem essa idéia: “Jamais uma linguagem religiosa foi mais florida, mais voluptuosa: onde o vinho representa a devoção, a taberna um oratório, os beijos e abraços os êxtases da piedade, a devassidão e a embriaguez o ardor religioso e a libertação ante os pensamentos mundanos”. Uma vez que o próprio treinamento dos sufis suscita profunda repugnância e recusa ao que é mundano e carnal, não é possível confundir suas alegorias com outra coisa além das efusões de almas que aspiram a Deus.

É verdade que, algumas vezes, os sufis foram acusados de irreligiosos ou mesmo heréticos porque negligenciam a prática de várias observâncias exteriores do Islam, e porque suas manifestações podem parecer heréticas quando estão em estado de exaltação mística. Por outro lado, ninguém no seio do Islam é mais rigoroso no que se refere às ações e alimentos proibidos indicados no Corão ou nos Hadith. Assim diz o sheikh sufi Burhanuddin Papazi: “Pode ser que não me vejam na mesquita cumprindo minhas devoções. No entanto, meu coração reza permanentemente na grande mesquita de Meca”. Não almejar mais alto, submeter-se à servidão do vinho e da carne, impediria a União com o Criador, que é a meta do sufi. A propósito do Awarif al Maarif, de Suhrawardi, o coronel H.W. Clarke escreveu: “Os sheikhs e poetas sufis dão prova do amor mais profundo, ainda que platônico, por indivíduos do mesmo sexo, notáveis por sua beleza ou por seus talentos; afirmam que é o Criador que adoram quando apreciam Sua admirável obra (corporal ou intelectual) e vangloriam-se de que seu amor, ao contrário daquele que se sente por indivíduos do sexo oposto, não está submetido à sensualidade da carne e é, portanto, mais puro”.

Esta tradução baseia-se numa versão manuscrita do Gulistan, datada de Tabriz 1380 d.C., por Mirza Muhammed Qasim Sarmouni, pertencente à coleção privada de Sua Eminência o Sheikh ul Mashaikh, a quem o tradutor oferece toda sua gratidão.