O ESTADO DE S.PAULO : : Sabático : : 2011-01-11

Maomé por um fiel do Ocidente

Com texto fluente, biografia de Martin Lings usa fontes tradicionais sem modismos.

por Mamede Jarouche


Conta a tradição muçulmana que o próprio Muhammad (m. 632 d.C.), fundador da religião muçulmana, teria recomendado aos discípulos que se abstivessem de relatos sistemáticos sobre as suas ações. Seu argumento, deveras razoável e ponderado, era o de que, sendo ele um simples ser humano – embora investido de missão profética, segundo a crença da religião que fundou – cometera tanto acertos como, eventualmente, erros, de modo que lhe registrar as ações, conferindo- lhes caráter sagrado, poderia consistir, aos olhos do vulgo, em legitimação de atos nos quais ele porventura houvesse cometido algum equívoco e depois se arrependido.

A recomendação foi quebrada menos de um século após a sua morte, com registros basicamente divididos em dois gêneros: de um lado, a sira, biografia propriamente dita, que obedece ao formato tradicional das biografias, relatando sistematicamente toda a sua vida, desde a origem e apresentando o claro propósito de fortalecer o moral dos muçulmanos com uma narrativa exemplar que enfatiza justeza e verdade da missão do profeta, bem como as suas façanhas, divinamente inspiradas, em defesa da nova fé; de outro, o hadith, conjunto de relatos sobre ações, ditos e mesmo silêncios do profeta que foram utilizados como uma das fontes da legislação e da jurisprudência islâmicas, ao lado do Alcorão e da sunna, a prática ortodoxa dos primeiros conversos ao islamismo. Nessa linha, o hadith é menos laudatório que a sira, pois obedece a determinações diversas e mais eminentemente pragmáticas, ao passo que a primeira, conquanto pudesse fazer parte dos rituais de adoração, também servia, ocasionalmente, a propósitos mais ornamentais; embora seja natural o interesse pela figura do fundador de sua religião entre os muçulmanos, as inovações no gênero são relativamente escassas, com eventuais compiladores e historiadores retomando o que dissera Ibn Hisham e utilizando as fontes usuais do hadith. Mais modernamente, em especial a partir do século passado, é que começaram, de modo tímido, a espocar novidades aqui e acolá no âmbito do islã.

O pioneiro na vertente da sira (biografia) foi Ibn Ishaq (m. 768 d.C.), cuja obra, pelo visto controversa, se perdeu, tendo sido resgatada e reescrita mais tarde por Ibn Hisham (m. 828 d.C.), que deu à narrativa sobre a vida de Muhamad o formato tradicional geralmente aceito até hoje, caracterizado por uma aura sagrada e honorável. Já na segunda vertente, o hadith, a palma cabe com todos os méritos a Muslim (m. 875 d.C.) e Al-Bukhári (m. 870 d.C.), compiladores e sistematizadores de grandeza ímpar. Aliás, esse segundo gênero, o hadith, teve enorme fortuna, com a produção de inúmeros tratados ao longo dos séculos, fato esse assaz compreensível caso se leve em conta a sua importância para a própria legislação muçulmana, a shari’a.

Ao contrário do programático convencionalismo das biografias escritas em terras do islã, no Ocidente, conforme seria de se esperar, os diferentes interesses em torno da personalidade do profeta bem como do próprio islã tornam a oferta mais variada, e isso desde os primórdios, na Idade Média, com textos que vão da diatribe mais aberta à proposta de conciliação, passando, também, pelo desejo honesto de compreender essa alteridade.

Moderna, a biografia do inglês Martins Lings (1909-2005), Muhammad, é mais uma tentativa, decerto a mais bem lograda no Ocidente, de tornar legível a biografia e os feitos do homem que lançou um dos maiores desafios que a cristandade teve de enfrentar. Convertido ao islã, Lings, cujo nome árabe era Abu Bakr Siraj Ad-Din, escreve um texto cuja raridade está justamente num hábil cruzamento a que poucos se arriscam: seu relato, por um aparte, utiliza com abundância, generosidade e respeito as fontes tradicionais, sem se deixar envolver por modismos críticos aplicáveis ao caso; de outro, não abre mão do rigor de explanação, com notas, remissões e citações constantes, que conferem um cunho de legitimidade acadêmica ao seu trabalho.O resultado é um texto escorreito, cuja fluência se lê com agrado, e aderente ao ponto de vista das fontes, plenamente justificada pela conversão do autor,muçulmano devoto. Essa adesão se faz de maneira bastante sutil,com recursos poéticos na medida certa, sendo possível citar como exemplo todos os relatos sobre eventos por assim dizer sobrenaturais, os quais, recolhidos nas fontes primitivas onde se encontram descritos, são reproduzidos com tal habilidade pelo autor que o leitor passa ao largo de sua “cumplicidade”, diga-se assim, com o biografado.

Enfim, um arabista não poderia ainda deixar de ressaltar, ao lado da qualidade material da edição, os cuidados com a transcrição dos nomes árabes, o que é inusual em muitas obras similares. Sem temer o risco de causar estranhamento no leitor, a edição não hesita em lançar mão de diacríticos nas letras latinas a fim de ficar mais próxima dos sons do original. Assim, o leitor não deve surpreender-se ao encontrar, logo na capa, a palavra Muhammad do título com um pingo sob o “h” para transcrever um fonema fricativo laringal surdo que existe em poucas línguas além do árabe.

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Mamede Jarouche é professor de Literatura Árabe na USP