JORNAL DA TARDE : : : : 1987-07-18

“Ah, meu coração! Acende a chama da alma na luz do amor...

...aprende assim de seu Bem-Amado o salmo do amor sagrado. Revela seus segredos como o rouxinol, que não pode falar como nós”. E completa-se uma prece sufi, uma prece do sufismo, o pensamento místico islâmico, que se apresenta ao leitor do livro A Linguagem dos Pássaros.

por Luiz Carlos Lisboa


Diz o Corão que “Deus está mais próximo de nós do que nossa veia jugular” (50:16), e no entanto o contato dos homens com a transcendência e a verdade religiosa foi no Islamismo - como nas outras religiões tradicionais - sempre espaçado e ocasional. Para o sufismo, o veio dourado do misticismo islâmico, a extinção do ego humano na realidade divina é parte da maravilhosa fatalidade do Universo, mas a antecipação desse fenômeno pode ser conseguida pela taxa (o aniquilamento em Deus), através da meditação e do conheci­mento de si mesmo. É sobre isso, talvez, que fala o Corão ao dizer: “... quando ouço, sou a audição com que Deus ouve, como sou a visão quando Ele vê, e a mão quando toco, e o pé quando caminho...”

O sufismo data dos primeiros tempos do Islã, pouco depois da morte do Profeta, com Hassan Baçri e Djahiz, místicos e poetas. A associação da religiosidade com a poesia foi inevitável porque Deus se expressa pela beleza, nessa e em outras místicas. A experiência religiosa pessoal opunha-se ao ritual, à moral rigorosa, e foi vista pelos representantes do “clero” como suspeita. Muhasibi, teólogo iraquiano de tendência mutazita, converteu-se ao sufismo em 857 e escreveu um manual completo da vida interior, no qual pela primeira vez falava da experiência pessoal no terreno minado das crenças religiosas. Em 910, Djunaid escreve e influencia Al-Hallaj, martirizado em 922. Hallaj exerce, por sua vida e obra, grande impressão em Farid ud-Din Attar e em outros como Al-Ghazali, Ibn Arabi e os teóricos contemporâneos do simbolismo sufi. No século XII, os mongóis invadiram Bagdá e dominaram o mundo árabe. A perseguição sofrida pelo arabismo, e pelos sufis em particular, conferiu qualidade à sua poesia contemplativa, de modo que tia Pérsia (futuro Irã) seu desenvolvimento seria brilhante.

O Corão está longe de ser um tratado teo­lógico nem é uma interpretação racional do universo apoiada em dogmas. Seus trechos fundamentais alcançam primeiro a imaginação dos homens, e somente depois chegam ao seu intelecto. A comunidade muçulmana foi sempre uma sociedade moral, alheia às questões teológicas, porque os preceitos corânicos dirigiam-se aos aspectos práticos e éticos. Quando o Islã fez contato com o mundo greco-romano surgiram as especulações e controvérsias técnicas, e em pouco tempo elas fascinaram os intelectuais e artistas muçulmanos a ponto de se tornarem dominantes. Houve sempre, então, o religioso “prático” que se atinha ao Corão e às regras de comportamento, e os eternos interpretadores da palavra de Maomé, que provocavam divisões e dissidências internas. Em meio a esses fenômenos naturais da história religiosa surgiu o pensamento sufi (a palavra deve proceder de suf, o tecido de lã usado pelos religiosos pobres), inevitavelmente associado à tradição mística de todos os tempos, que sustentava ser impossível chegar a Deus pela inteligência, pela razão, pela vontade. Para o sufismo, a intuição é mais importante que a racionalidade, e o dogma é sempre a racionalização do que se teme ou se deseja. O misticismo especulativo (existente no judaísmo, no cristianismo e nas religiões orientais) conheceu grande destaque no sufismo - aonde chegou por influência cristã e gnóstica, somando o apreço pela realidade às iluminações do inconsciente, no homem.

O médico Mohamed Ibn-Ibrahim, conhecido como “Attar” (perfume, odor de rosas), foi um dos três maiores poetas místicos persas de todos os tempos, com Sanai e Djalal Ud-Din Rumi. Além do seu diwan (coletânea de versados religiosos) foi autor de diversos masnavi (esquema de dísticos com rima, adotados em poemas épicos, alegóricos ou místicos) e de uma hagiografia, ou vida dos santos, a Tadhkriat al-Awita. Attar viveu mais de cem anos e morreu em sua cidade, Bagdá, vítima dos mongóis que chegavam em ondas à Pérsia. Um dos masnavi mais conhecidos de Attar é o Mantiq-at-Tayr, o colóquio dos pássaros ou simplesmente A Linguagem dos Pássaros. Sua obra Vida de Al-Hallaj, publicada poucos anos antes da sua morte, em 1230, revela a quase divinização do mestre persa e mártir.

A poesia mística dos sufis não discorre sobre questões religiosas, mas tem a intenção de fazer o leitor percorrer aqueles caminhos que suposta­mente conduzem à meta religiosa. A palavra grega poiesis refere-se a fazer, e esse é o espírito da poética sufi: a feitura imediata de um instante religioso - a diluição do ego na realidade maior do todo. Na linguagem esotérica da mística muçulmana o pássaro simboliza o ser ressuscitado, renascido das cinzas da própria ignorância. Nos poemas religiosos sufis, “o povo dos pássaros” são as almas dos homens que saem em busca de Deus, ou da realidade. A poupa, pássaro semelhante à pega, é o símbolo do homem que se ilumina e que pode ajudar seus semelhantes.

“Ah, meu coração!” - diz uma prece sufi, registrada por H. Massé em sua “Antologia Persa” – “Renuncia um pouco a esse corpo feito de barro e de água, e depois chama para o amor divino todos os que vivem pelo coração. Acende a chama da alma na luz do amor, aprende assim de seu Bem-Amado o salmo do amor sagrado. Revela seus segredos como o rouxinol, que não pode falar como nós.” O amor e a matéria-prima das epopéias místicas do sufismo, mas é alguma coisa sobre a qual não se faz discurso. A poesia religiosa não fala sobre o amor, mas está tomada por ele. A realidade - al-Haqq - é aquilo que é, simplesmente, sem as interferências da ilusão, da mente que fala todo o tempo, dos temores e do desejo. “Estar com essa realidade” é, ao mesmo tempo, a coisa mais natural e fácil, e a coisa mais complexa e elaborada, quando enunciada com auxílio das palavras. Essa a tarefa quase impossível que os poetas sufis se propõem, e o caminho que A Linguagem dos Pássaros, pela voz de Farid ud-Din Attar, abre aos olhos e ouvidos de um leitor-ouvinte às voltas com a dificuldade de livrar-se de condicionamentos impostos por uma cultura que não se pergunta “por quê?”, mas ape­nas e exclusivamente “como?”. Os sufis não se in­quietam com perguntas, e o que eles dizem sem­pre é que uma questão bem colocada já traz em si mesma a correspondente resposta.

Durante trinta anos estive à procura de Deus, e quando afinal abri meus olhos descobri, enfim, que era Ele que me procurava. Atribuída a Attar por Dermenghem, a frase explica o homem e fala da sua obra. Através de metáforas e recursos poéticos, Attar expõe as etapas percorridas pelos humanos para atingir a perfeição - ou o que só pode ser conhecido quando já foi encontrado. Com a ajuda do masnavi que é A Linguagem dos Pássaros, o autor conta a história do bando de pássaros que resolve empreender uma viagem em busca de um chefe. de um deus ou de um sentido para a vida. Os pássaros reúnem-se em assembléia e ouvem falar no simorgh, metáfora da última realidade e pássaro formidável. Mas a assembléia daquelas aves nada tem de monótona nem suas histórias são cansativas. Os pássaros de Attar são, na verdade, homens em busca de Deus, ainda que não saibam nada dessa meta interior e dessa sede de conhecimento.

O autor descreve, na obra, as etapas percorridas para atingir um estado desconhecido da consciência humana, e colocado por isso além da barreira de palavras da mente. Esse estado é o metafórico simorgh, que se encontra de determinada maneira, pelo despojamento de ilusões e imagens superpostas. O livro é dividido em sete partes - a procura, a paixão, o conhecimento, o desinteresse perfeito, a unidade em Deus, a estupefação e a anulação de si mesmo no Bem-Amado. É desse modo que o místico, começando por uma busca resoluta, caminha de degrau em degrau até a anulação da sua miragem pessoal numa realidade absoluta desprovida de fantasias. A necessidade do simbolismo é evidente: como a consciência nada sabe da meta final, ela terá de chegar até lá pela eliminação, ou de maneira -negativa. Sabendo o que não é, a mente descobrirá finalmente o que é.

O simorgh é a metáfora do mestre perfeito e a manifestação de Deus como é também o eu interior, o que se encontra na palavra Ali (o quarto califa e primeiro ímã xiita), onde se diz: “Aquele que chega a se conhecer, ou a adquirir o conheci­mento do seu eu, conhecerá seu Deus”. O tema do simorgh foi utilizado pela maior parte dos poetas e místicos muçulmanos, e Hafez tem um gazel que canta a beleza desse “grande pássaro”. Farid ud-Din Attar faz dele o centro (e o título) do seu masnavi. Como místico owaysi que era (os que dispensam gurus ou mestres, e que vão até o fundo de si mesmos através de buscas pessoais, às vezes com o auxílio de um anjo iniciático), o poeta persa dizia acreditar que o mártir Al-Hallaj era seguido por um “ser de luz”, ou um “amigo imortal” que vivia no seu íntimo - o que tudo, afinal, continuava sendo metafórico e muito pouco explicado para a consciência moderna.

A epopéia mística que se chamou A Linguagem dos Pássaros faz parte das viagens noturnas de que fala a literatura oriental e religiosa de todos os tempos. Esse livro de Attar é um coroamento do gênero, e uma obra de devoção ao estilo muçulmano. O texto persa do Mantic Uttair tem 4.647 versos, e começa mostrando uma assembléia ornitológica em que o falcão, a perdiz, a codorniz, o rouxinol, o pavão, o faisão, a pomba e o pintassilgo discutem sobre a necessidade de terem um rei, que afinal decidem deve ser a poupa (espécie de pega, com plumagem). “Sou um dos engajados na milícia divina”, diz a ave escolhida, que a seguir fala na grande promessa que é o simorgh que nasceu na China. Os pássaros fazem projeto de viagem, e “cada qual tornou-se amigo do outro e um inimigo de si mesmo”. Mas a viagem é longa, e todos hesitam. Boa parte da obra é dedicada aos inúmeros discursos (todos simbólicos, com a problemática humana de todos os tem­pos) daqueles que querem justificar o fato de não poderem mais empreender a viagem, por temores diversos. São as razões que levam o homem a permanecer imóvel espiritualmente, num mundo que lhe inspira medo e insatisfação.

Os pássaros põem-se a caminho e continuam explicando suas angústias disfarçadas. Após o 22º pássaro, o vôo alcança os vales do amor, do conhecimento, da indulgência, da unidade, da estupefação, da pobreza, da vida e da morte. As historietas que são escutadas a meio caminho, dizem respeito a vizires a xeques, a sentimentos humanos. Muitos peregrinos desistem, outros morreram a caminho. Finalmente, chega a montanha do simorgh. Antes, o leitor já sabe de que não se trata, mas nada sabe sobre o que vai encontrar. A própria fala é mostrada como ociosa, na história sobre a agonia de um teólogo: “Ah, se eu soubesse antes quão mais alta honra é escutar que falar, teria perdido minha vida a discorrer? Ainda que um discurso fosse tão excelente quanto o ouro, mais vale não dizê-lo”. E o que o simorgh tinha a ensinar era a anulação consentida de toda vontade - como na tradição cristã, zen budista, taoísta, jainista, talmúdica - para que nada restando como obstáculo, alguma outra coisa emergisse em seu lugar. Talvez Deus, talvez alguma coisa que não pode ser enunciada por palavras nem pode ser sequer pensada. No fim, “todos se sentaram no banco da majestade e da glória”, mas ninguém estava consciente do estado a que havia chegado. Não havia mais ninguém dentro daqueles pássaros. 

Luiz Carlos Lisboa