JORNAL DA SEMANA : : : : 1987-07-19

Na Linguagem dos Pássaros, a verdade do sufismo

Doutrina que remonta ao século XI o sufismo é uma das principais correntes da tradição esotérica do Oriente. A essência do conhecimento sufi, caminho para o homem chegar à verdade interior, chega agora ao Brasil nas narrativas alegóricas de A Linguagem dos Pássaros um clássico da literatura universal.

por Matias José Ribeiro


Deve-se evitar, na tentativa de compreensão intelectual do sufismo, considerá-lo seita, religião ou mesmo filosofia. É preferível a (menos desgastada) palavra doutrina para referência a esse importantíssimo ramo da tradição esotérica nascido do islamismo no século XI e mantido vivo até hoje, notadamente no médio Oriente. (A palavra esotérica aqui, acrescente-se, não tem o sentido vulgar de coisa hermética ou ocultista. Tem precisamente a acepção do termo grego esoterikós, “interior”, e está relacionada à busca espiritual do homem, à procura do autoco­nhecimento como caminho para atingir a verdade suprema.)

A distinção é necessária porque o sufismo sempre se apresentou quase como que transcendendo os aspectos meramente formais das religiões, desafiando qualquer sistematização. O sufismo não adota nada como sagrado, nem dogmas, nem símbolos, nem ícones, nem templos, e é absolutamente flexível, adequando-se ao momento, ao presente. O ensinamento sufi concentra-se na essência, o que importa, sempre, é a interioridade.

É essa flexibilidade do sufismo e sua vinculação com uma tradição mística de séculos que justifica e dá importância à divulgação dessa doutrina hoje — quando o homem está completamente afastado de sua dimensão interior — e especialmente no Brasil, onde nunca se deu valor maior à busca esotérica.

Basicamente o sufismo é uma tradição oral. A transmissão de seus ensinamentos se dá através de lendas, histórias, parábolas. A Linguagem dos Pássaros, grande poema místico escrito na Pérsia do século XII por Farid ud-Din Attar, é uma dessas narrativas alegóricas que contém a essência do pensamento sufi. E das maiores e mais importantes. Verdadeiro clássico da literatura mundial — com ressonância na obra de escritores ocidentais do peso de Chaucer, Milton, Dante, Borges —, A Linguagem dos Pássaros (Attar Editorial, 318 páginas, Cz$ 620) está sendo pela primeira vez lançado em língua portuguesa e praticamente inaugura a difusão do sufismo no Brasil. Foram já lançados antes no País outros livros de caráter introdutório ao sufismo, mas nenhum deles reveste-se da importância do clássico persa, apresentado em versão integral pelos tradutores e editores Álvaro de Souza Machado e Sérgio Rizek.

No livro, de alto caráter simbólico, Attar, em fala ritmada, conduz o leitor através de uma viagem, uma peregrinação pelo cotidiano da Pérsia do século XII. Conta pequenas histórias, personificadas por reis, sheiks, comerciantes, homens e mulheres do povo e muitos, muitos pássaros — da Roupa, que simboliza o mensageiro divino, à garça, codorniz, falcão, pavão, rouxinol, papagaio, “todos os pássaros do mundo” —, histórias carregadas de sentido místico e ricas de um ensinamento que não se esgota numa leitura única. “O livro de Attar possibilita muitos planos de leitura, de intelecção”, diz Sérgio Rizek.

PRATICAS ESPECÍFICAS

O tradutor de A Linguagem dos Pássaros destaca também o caráter supra-literário do texto, citando frase do próprio autor: “Não leias meu livro como uma produção poética ou de magia, mas relacionando-o ao amor espiritual. Aqui não é preciso mais que o amor.” Rizek, que não é sufi, mas juntamente com Álvaro Machado empenhou-se na tradução do livro por paixão intelectual, afirma ser A Linguagem dos Pássaros um texto fundamental para quem quer se aproximar do ensinamento do sufismo.

Todas as histórias contadas por Attar, diz ele, podem ser transportadas, correlacionadas com os dias de hoje, na São Paulo dos anos 1980. “A potencialidade desse ensinamento se coloca é na aplicação ao nosso cotidiano”, afirma.

A simples leitura de A Linguagem dos Pássaros, porém, não faz de ninguém um sufi, nem mesmo um iniciado no sufismo. A exemplo de outras escolas esotéricas como o cristianismo, o budismo e o hinduismo, também o sufismo exige do buscador a presença de um mestre vivo. “É o mestre que será capaz de discernir o ensinamento para o discípulo, trazendo-o para o contexto adequado”, observa Rizek. Por outro lado, o fato é que o caminho para o autoconhecimento através da doutrina sufi vai além do ensinamento oral, utiliza além dele toda uma gama de práticas especificas que passam pelos exercícios respiratórios e pela dança. Práticas que apenas um mestre, empregando técnicas e meios de hoje, tem condições de prescrever ao discípulo. O mestre, aqui, deve ser entendido não como um “guru”, um santo ou um iluminado, e sim como alguém que já trilhou o caminho do autoconhecimento e chegou a um nível de consciência maior, é um ser mais integral. A Linguagem dos Pássaros, portanto, é apenas uma boa apresentação para o leitor brasileiro do ensinamento sufi em sua essência. “O livro é, digamos, um instrumento para contato inicial com o sufismo. Não substitui um mestre”, ressalva Rizek.

TEORIA E PRÁTICA

Também com o sentido de aproximar o público brasileiro da doutrina, desta vez a nível primariamente intelectual, os editores de A Linguagem dos Pássaros estão lançando simultaneamente Princípios Gerais do Sufismo (Attar Editorial, 70 páginas, Cz$ 150). O livrinho reúne três textos ensaísticos de Sirdar Ikbal Ali Shah, escritos no inicio deste século na Inglaterra e traduzidos por Álvaro de Souza Machado. Em Princípios..., Ali Shah reafirma que a essência do conhecimento iniciático, no sufismo como em outras doutrinas esotéricas, tem como denominador comum “a busca da verdade através de uma combinação de teoria e prática”, reforçando a idéia da necessidade de o buscador sufi ter um mestre, um guia espiritual. O autor coloca ainda que “atualmente” existem quatro estágios pelos quais o buscador sufi deve passar em seu caminho para a perfeição e união com a Essência Divina. O primeiro, Nasut, ou Humanidade, tem como principal característica o fiel cumprimento pelo neófito dás “leis e cerimônias islâmicas”. O segundo, Tariqah, ou Capacidade, dá ao buscador a condição de iniciado: ele deixa de ser um neófito, dispensa seu guia e torna-se um sufi. O terceiro, Araff indica que os olhos do buscador foram abertos e ele está de posse de conhecimento sobrenatural e interior. E o estágio final, Haqiqah, é o da Verdade, perfeita e suprema, da união plena da alma com a Divinidade.

Mas, segundo os textos de Sirdar Ikbal Ali Shah, um dos mestres modernos do conhecimento esotérico, o encontro com o divino através do sufismo é para bem poucos. Ele prega que o buscador, “para alcançar a condição de elevada santidade da forma mais efetiva”, restrinja sua vida à de um eremita, retirando-se quando possível à sombria solidão da floresta ou ao silêncio das lonjuras do deserto. Condição, naturalmente, incompatível com as condições da vida contemporânea. E que seria como que a condenação do Homem moderno — quando, na verdade, na própria essência do ensinamento sufi, em sua infinita flexibilidade e possibilidade de adaptação a um determinado momento e conjunto de condições, está o caminho para o Homem recuperar sua interioridade e dar nova dimensão à sua vida. Especificamente aqui no Brasil são raríssimos os mestres, os guias para quem quiser enveredar por esse caminho. Mas essa é uma outra história…

Matias José Ribeiro